CRUDEZZA

 

O primeiro sitcom que realmente me seduziu - pelo que me lembro - foi My so called life.

Aos 14 anos fiz minha primeira melhor amiga, de verdade. Ela era a bad girl da escola. Não a mais galinha nem phodona - essa era a Lany, a traíra. Estava mais para Emily, the Strange.

Com ela, nessa idade passeava de Dodge prateado, pintado com spray por nós duas. Ela havia comprado um carro com 15 anos. Por outro lado, passei horas ensinando História, Gramática e outras coisas úteis na vida dela. Depois desse derradeiro ano, nossas vidas nunca mais foram as mesmas. Foi chegado os anos 80 e sua insanidade e niilismo. Sem contar a falta de gosto.

Fato é que ela cursou o colegial sendo a mais CDF da classe e eu cai no punk rock e parei de estudar por um ano.

E apesar do meu desprezo e descaso - fui de ressaca prestar a maior parte das provas para as faculdades que havia me inscrito. Nessa época, a louca mono-celha já era minha amiga mas eu não percebia o que dali se desencadearia. Foi viver para crer.

Big Sur. Admirável Mundo Novo. O Pequeno Prince. O Ser e o Nada. O Estrangeiro. 1984. Almoço Nú. Orgulho e Preconceito. Adorno. Barthes. Pessoa, acima de tudo. E Corso, além dos clássicos dos 80s... Wilde, Niztchie, Poe, Pequenos exemplos dos pais que tive e o tipo de educação que permeou minha cabeça e todos, de forma ou outra confortaram a estranheza e o estranhamento. E durante muito tempo, detestei ser mulher. Sentia-me aprisionada.

Os 80 foram densos, niilistas. Havia uma frieza natural mas é porque não se esperava muito da vida, como um todo.

Os 90 trouxeram à ira e revolta oitentista, muito dos hippies à agressidade e indeferença da década anterior.

Amei mudar de década. Nada mais foi o mesmo, mais uma vez. Ainda que novamente, outra década se passou e não ficamos impunes ao tempo. Are you experienced?

Os 90 foram reconfortantes, cheguei mesmo a acreditar, como filha dos 60 que sou. Era feliz. E louca, livremente louca, sem nenhuma culpa ou modelo de comportamento para desempenhar. Não era pessoa alguma, ser estranha era natural e não agressivo e contraditório. Não conhecia o termo lar até experienciar os anos 90. Sendo ninguém, podia ser eu mesma.

Não era filha, nem irmã, nem coisa alguma... não havia pressões profissionais ou acadêmicas nem laços de espécie alguma. Nem carteira de identidade havia. Apenas sua voz e seu eu afirmavam sua própria identidade. E sua voz tem poder. E credibilidade. Espaço. Fluência.

Nunca imaginei que estaria no chão nos anos 2000. Sempre me vi voando, em minhas influências Jetsonianas e por que não?, mais futuramente Blade Runner.

Ontem assisti a um filme lindo e hoje a um super triste.

Tudo porém, é ficção e sei disso o tempo todo, mesmo quando deixo minhas emoções percorrerem o universo paralelo - e irresistível da 7ª. Arte.

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Não me lembro de ter me sentido não sozinha, a não ser nos dias em que fui muito amada por ele. Sendo assim, solidão não me é estranha e dizer a verdade, evito o social. Tenho uma certa phobia, hoje em dia, do mundo, como um todo enquanto estando em volta de mim e sendo aqui.

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E fui encontrá-la mesmo sabendo que nada poderia ser como antes - o que sempre será uma pena - pois nos divertimos muito. Foi testemunha viva e ativa em muitas das minhas melhores memórias...  Entre pints de Guinness, squats, mijos na Oxford St. e doces nos parques... Festas, shows, compras... É verdade que gosto e sempre gostarei de conversar com você, receber seus abraços meio des-coordenados.

Dá-me mais vinho, pois a vida é nada...    FP

 

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